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10-Set-2010
 
 
Uma paixão de Cristo nada messiânica Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo M. Guimarães   
 
Finalmente chegou às telas dos cinemas brasileiros o esperado filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. À primeira vista, parece um santo e profundo filme que chega para abençoar e para despertar a muitos. Afinal, trata-se das últimas horas do sofrimento e agonia do Messias, que se entregou por nossos pecados para nos salvar. Mas, se analisarmos o filme com olhos mais “clínicos”, fundamentando-nos nas Escrituras, veremos que há várias falhas e erros até mesmos grosseiros. Porém, antes de tecer alguns comentários sobre o mesmo, deixo claro, que minha intenção não é acusar ou condenar ninguém, nem o autor do filme, nem as denominações religiosas ou qualquer outro tipo religião que seja. Pois afinal, nossa Constituição nos garante o direito de crença e, o respeito, acima de tudo que a todos é fundamental e imprescindível.

As cenas e mais cenas cheias de detalhes horripilantes, de um martírio nauseante e super exagerado frente a vulnerabilidade da resistência humana, foram desproporcionais. Afinal, qual é mensagem do filme de Gibson? Ele alega em suas entrevistas, que quis “descrever a realidade do sofrimento de Cristo para salvar a humanidade”. Até aí, tudo bem. Se por um lado, o filme mostra fatos verdadeiros segundo a Bíblia, por outro falha, ao não apontar claramente qual foi o verdadeiro sentido deste cruel martírio seguido de morte.

A seita religiosa a qual pertence Gibson, contrárias as Reformas do Vaticano II, é notoriamente defensora de um pensamento medieval que a humanidade pode ser salva por entender o tamanho do sofrimento de Cristo, ou seja, deve haver um sentimento de dó e pena de Cristo. Ou seja, segundo Gibson deve-se ter uma impressão de um Jesus pobre coitado que tanto sofreu. Sentir-se tremendamente chocado, deprimido e temeroso, e o pior de tudo, ter que sentir as mesmas dores e agonia de Cristo na própria pele, fazem parte deste errôneo entendimento. Assim, a seita de Gibson acredita que, se tal sentimento e consciência do flagelo e martírio de Cristo é entendido, então, mais propensa estará esta pessoa a receber a salvação. Mas, isto não é e nem foi o propósito real da morte de Cristo. É claro que devemos ler os textos dos evangelhos, como o de Mateus, as cartas de Paulo e outros, para tomar a consciência que Yeshua realmente morreu e padeceu com grandes sofrimentos em nosso lugar como sacrifício vivo. Isto nenhum cristão pode negar. Paulo diz: ...” e andai em amor, como Cristo também vos amou, e se entregou a si mesmo por nós como oferta e sacrifício ( pelo pecado) a D’us, em cheiro suave...” ( Ef 5:2). Ou seja, somos salvos, porque Jesus se entregou por nós fazendo a parte Dele. E agora, nesta aliança bilateral do Gólgota, devemos fazer nossa parte, buscando o arrependimento, a fé e a mudança do estilo de vida, sendo verdadeiros e autênticos seguidores (discípulos) de Jesus, o qual disse: ... “arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus ( Mt4:17). Dizia mais Jesus: ...”Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará...”(Jo8:31-32). Sabemos também que Yeshua, Jesus, foi o cumprimento do sacrifício de sangue retratado várias vezes no livro de Levítico: ... “Sem derramamento de sangue não há remissão (dos pecados- Lev 17:11 e Hb9:22), ou seja, a mensagem da Cruz está centrada em arrependimento, crença neste sacrifício vicário e, sobretudo, na ressurreição de Yeshua. Por isso, Yeshua pode nos dar o novo nascimento em espírito, pois Ele está vivo, enquanto outros estão mortos. Buda está morto, Maomé está morto, Confúcio está morto, mas Yeshua está vivo e, por isso, Ele pode dar vida ao homem que está morto em seus delitos e pecados ( Ef 2:1). Esta é a razão da morte e do sofrimento de Cristo, cumprindo as profecias, que “ Ele seria esmagado por nossas iniqüidades”( Is 53:5).Estes aspectos, incluindo a ressurreição, poderiam no filme terem sido melhor explorados. Se o outro lado desta aliança com D'us através de seu Filho que padeceu no Calvário for esquecido, então, este filme não passará de mais uma história de cinema.

Creio que a interpretação deste filme ficará a cargo de cada um de nós, pois dependerá do grau de conhecimento dos momentos da paixão de Cristo, e, sobretudo, se o telespectador já experimentou autenticamente a mensagem de amor, de paz, de arrependimento e, sobretudo, da fé pregada por Jesus, através de quem recebemos a salvação plena ( Lc 1:69).

Por exemplo, aos olhos de um ateu ou de um leigo, as cenas mais evidentes serão a maldade da com a qual Jesus foi castigado, ou seja a maldade da humanidade, enquanto aos olhos de um crente, o entendimento da obra vicária da Cruz será o ponto de maior importância. Aos olhos de um judeu, as cenas anti-semitas serão, obviamente, mais evidentes.

Mas, ao meu ver, este filme oferece um grande risco para más interpretações, pois se a maioria do público for de leigos e de pessoas que desconhecem o contexto bíblico, então deduzir-se-á que quem matou Jesus foram os judeus e os romanos.Os judeus porque pediram sua condenação, sendo traído por Judas, e os romanos que praticaram cruelmente sua execução fatal. Não podemos nos esquecer das atrocidades da história entre o judaísmo e o cristianismo, advinda desta má, capciosa e tendenciosa interpretação anti-semita. Por causa desta má interpretação, a Igreja Cristã se separou da Casa de Israel e dos santos princípios da Torá. Por causa desta separação, a Igreja chamada genericamente de cristã, perdeu grande parte de suas raízes bíblicas e judaicas da fé e, até nos dias de hoje, vem abrindo portas para heresias e entradas de grandes mentiras e enganos na chamada fé “cristã”. O culto aos espíritos dos mortos, a idolatria, a ignorância na guarda dos dias santos e de festas determinados por D'us, o exagero na comercialização dos milagres, curas e falsas promessas sincretistas não contribuirão para que ninguém alcance a “estatura do varão perfeito”( Cristo como nosso modelo, daí o termo “cristão” (Ef 4:13). Estes desvios são bons exemplos desta ruptura da igreja cristã de suas raízes bíblicas e judaicas. Assim, tem-se mais preocupação em fazer cegamente prosélitos para uma determinada denominação cristã do que alcançar pessoas que desejem crescer, amadurecer e dar frutos na proporção que caminham à semelhança da estatura de Cristo em termos morais e de santidade. Afinal, Cristo padeceu por cada um de nós que Nele crê e que segue os Seus caminhos, não se aplicando à toda a humanidade. Embora Cristo tenha morrido por todos, não quer dizer que todos serão salvos pela obra da cruz. Este tem sido um dos piores erros do cristianismo e o filme em questão endossa esse fato.

Afinal, Quem matou Jesus? Pela bíblia, não foram os judeus e nem os romanos. Foi o próprio D'us na obediência e na servitude de Yeshua, que desejou resgatar o homem da natureza do pecado, dando-lhe a chance de sair fora de juízo final pela graça e pela salvação que há na pessoa do Messias Yeshua ( Ef 2:5; Pe 1:2 e outras inúmeras passagens bíblicas). Este correto entendimento teria evitado muitas atrocidades históricas e rivalidades entre povos.

Por que o filme não é messiânico?

Primeiro, porque ele não mostra um Jesus judeu que fora criado como judeu, nos princípios da Torá, seguindo seus costumes e tradições judaicas como mostra a Bíblia. É interessante notar que colocaram Jesus e seus discípulos de uma maneira diferente do próprio povo judeu. Como por exemplo, Jesus e seus discípulos não usando o xale de oração( o talit- Nm 15:37-41; Mt14:36;Mt9:20), não cobrindo a cabeça, não falando hebraico, etc. Pelo contrário, falou até em latim com Pilatos. Fato este muito estranho! O Jesus apresentado no filme se identifica mais com a figura de um revolucionário passivo e protestante à Lei Mosaica. Isto nunca foi bíblico. Pelo contrário, inúmeros são os exemplos de Jesus e os discípulos, cumprindo a Torá, falando e orando na língua hebraica e não no aramaico, que se diga de passagem, foi a língua que os judeus falaram no exílio da Babilônia. Por isso, alguns textos do profeta Daniel foram escritos neste idioma. Mas, toda a bíblia, inclusive os originais de alguns livros do Novo testamento, foram escritos em hebraico, a língua das Sagradas Escrituras. Somente mais tarde foi traduzida para a língua grega, na versão da Septuaginta, até hoje existente. São vários os exemplos bíblicos no NT mostrando Yeshua, os discípulos e povo falando a língua hebraica, como as passagens em Jo20:16;Lc23:38;At22;2; At 26:14, etc.

A Segunda razão porque este filme não é nada messiânico é seu aspecto anti-semita que ainda, lamentavelmente, existe no meio cristão. Nós, judeus messiânicos, temos trabalhado para combater tal anti-semitismo, bem como aproximar a Igreja de Jesus de Israel e do povo judeu. As profecias dizem que Israel será salvo como nação ( Rm 11:15-32; Zc 12:10: Ez 36; Ez 37; Is 43 e outros textos), mostrando que a volta de Yeshua está relacionada com a restauração de Israel, como povo e como nação e, sobretudo, salvo pela crença em Yeshua ( Zc12:10 e Rm 11:26). Por isso, esta aproximação da Igreja restaurando as raízes judaicas e bíblicas de sua fé incitará os judeus à emulação, levando-os à salvação ( Rm11:14). Ou seja, as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja ( Mt 16;18). Assim, as forças malignas, sabendo do poder da Igreja, atuam no meio dos cristãos separando-os dos judeus e de Israel, evitando que pela aproximação e simpatia estes venham conhecer Seu verdadeiro Messias, Yeshua Há Mashiach. Assim também, não vemos que este filme poderá colaborar para a união e reconciliação da Igreja verdadeiramente cristã com Israel. Pelo contrário, este filme pode vir a reforçar ainda mais a atitude errônea que a Igreja tem tido em relação ao enxerto dela no Israel de D'us, o Israel de Abraão, Isaque e Jacó ( Rm11:17).Ou seja, a Igreja gentílica era zambujeiro e em Cristo passou a ser enxertada na “Oliveira” (O Israel crente de D'us). Parte dos cristãos juntamente com o Sr. Gibson precisam entender que D'us agora quer re-enxertar os próprios ramos naturais (os judeus) em Sua “Oliveira”, onde estarão, judeus e gentios crentes em Yeshua, sendo a família de D'us ( Ef 2:19). Neste ponto, o filme também deixa muito a desejar, embora, com certeza, o Sr. Gibson mostrou ignorar totalmente este outro lado do evangelho, além do sofrimento.

Há sem dúvidas, aspectos positivos no filme. A maior parte dos textos foram empregados corretamente segundo as Escrituras. Um outro grande ponto positivo no filme, para mim, foi ouvir várias vezes o povo dizendo: Yeshua! Yeshua! Tanto em aramaico como hebraico, o nome correto de Jesus é escrito e falado: Yeshua, que significa, “D'us é Salvação”. Assim, quando dizemos Yeshua há Mashiach, estamos dizendo na língua de Jesus, O Salvador é o Messias. Estas cenas podem ensinar a muitos cristãos o nome original de Jesus, sem traduzi-lo para outras línguas.

O povo judeu tem sido perseguido através dos tempos por causa destas más interpretações, confirmadas pelo autor da “Paixão de Cristo. Alias, ele próprio é fruto desta má doutrina. Lembremo-nos das Cruzadas na Idade Média; lembremo-nos do terrível e cruel tempo da “Santa Inquisição Católica”, que queimara nas fogueiras na Praça do Rossio em Lisboa, milhares e milhares de judeus que recusaram a aceitar a fé cristã; lembremo-nos do holocausto ocorrido nos campos de concentrações nazistas, onde milhares de judeus foram mortos frente ao mundo religioso, sobretudo, os cristãos ( tanto católicos e protestantes da época) e nem precisamos nos lembrar das diárias e constantes notícias da mídia mostrando o interminável conflito árabe-israelense. Não se trata aqui de analisar estas questões, mas sim de simplesmente comentar sobre um filme. Mas, todos precisam convir que devemos nos esforçar incomensuravelmente para encontrarmos a paz, o amor, a salvação e a redenção que há na pessoa do judeu e Messias Yeshua. É isto que as Santas Escrituras dizem. Se não houver arrependimento e mudança no interior do coração do homem, nunca haverá uma paz autêntica entre os povos, pois amor, alegria e paz são frutos do Espírito do próprio D'us ( Gal 5:22) e não podemos consegui-las com simples contratos humanos entre povos.

Oremos todos uns pelos os outros, amando cada um seu próximo, como Ele, Yeshua, nos amou. Converse com aquelas pessoas que assistiram ao filme e compartilhe com elas sobre esses importantes tópicos que acabamos de abordar. É tempo de esperança! É tempo de salvação ! É tempo de preparo para a volta do Senhor messias, Yeshua, com quem em breve reinaremos e vivemos para sempre.

"Maran Atá" ! Seja bem vindo!
 

 


(*) Marcelo M. Guimarães - Engenheiro Industrial, MBA em Economia, Teólogo, Rabino Messiânico ordenado pelo Netivyah Bible Instruction Ministry-Jerusalém-Israel. Fundador do Ministério Ensinando de Sião, do Cates, da Abradjin  e da Congregação Har Tzion em Belo Horizonte-Brasil
 
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